domingo, 11 de julho de 2010

Controvérsia.


Asfalto quente, concentração de cheiro, nuvens intensas, grosseiras, cinzas. Tudo em volta parado, e só eles, em volta do corpo como borboletas em volta do fogo. Fotografar ali, tentar perceber as razões, sugestões improváveis, curiosidade estranguladora. O corpo virado de barriga para baixo, cabelo preto, comprido, ondulado disperso pelo chão de maneira a não tapar a “obra de arte”. Uma asa de anjo tatuada, outra recortada. Por mão de quem? Porquê?

Mmm… Se conseguissem ouvi-lo. Mas é impossível. Ninguém lê a mente de ninguém, ninguém chega sequer a descobrir o que verdadeiramente somos, quais das facetas não nos é penosa. Mas olhem no canto, o rapaz com um sorriso e desprezo estampado. Tatuagens pelo corpo, algo estranho tatuado no pescoço pálido e tenso. Dedos longos, estreitos e sensíveis… Hum… Talvez um bocado manipuladores. Artísticos. Dão asas, criam reproduções andantes, preenchem os espaços em branco. Dias maus, linhas tortas por um bocado de falta de experiência; dias bons, linhas perfeitas – inspiração. Ele deu-lhe as asas, mas o que pode fazer um artista quando a sua obra de arte enjoa-o pela controvérsia, quando dá falsas expectativas, quando não significa nada – ilusão?

Repara, o sorriso do jovem adulto desaparece. Querido, estás numa esquina fedorenta a lamentares o feito: o antes, quando ela entrou dentro da loja “Hardcore” onde trabalhas e pediu que lhe fizesses duas asas de anjo atrás das costas? Ou o depois, quando ela se riu na tua cara, divertida, fria, consciente? Ou, e ainda, o depois, quando te virou as costas e tu arrancaste-lhe a asa? De qualquer maneira, deixa estar… Já é tarde demais para mudares alguma coisa. Mas olha, lembra-te que não há humanos que mereçam ter asas. É por isso que os anjos não existem.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Puro Acaso pt.8

Passaram 6 meses...

Passaram 6 meses desde que vi a minha vida a andar para trás, partida em bocados...Como se tratasse de uma coisa insignificante, minúscula e desnecessária...Um jarro velho...Um jarro partido que nunca mais poderá ser colado, um jarro que ainda existe, mas com a sua existência magoa a pele de quem o tinha, pequenos pedaços de vidro que trazem uma dor enorme...Um jarro que foi partido por uma pessoa...Por um único ser que estragou tudo....A minha vida foi estragada partir do momento em que um animal preso no corpo duma pessoa teve um desejo absurdo...Um desejo de ter a minha maninha pequenina...A minha Karina...A pessoa que mais me entendia e que eu mais amava...Uma pessoa que foi apanhada no momento de fraqueza, num momento em que estava ausente a sua força....
Quando estávamos no meu.... Maldito aniversário, bebemos demais...Todos nós...O Nick e ela saíram...Ele teve um ataque de ciúmes, bateu-a e....Tirou-lhe aquilo com que sonhava a cabeça doentia dele todas as noites...Violou a minha maninha pequenina....Após o que ele, o sacana, ao diabo em pessoa… Sim o Diabo não é uma figura mítica, ao contrário de Deus… Ele esta aqui… Uma bofetada “cala-te Karina, que eu bem sei que tu queres isso!”. Mais outra bofetada, soco na barriga, soco na cara, mais socos, mais pontapés…Um som sem interrupções....Um "pi" contínuo... Sem sinais de vida....
Não a culpo por tê-lo amado...Culpo os meus estúpidos 16 anos, o Nick, o desejo...Todos e tudo menos a Karina....
Culpo o mundo...pela inexistência dela, pela minha existência.

domingo, 3 de maio de 2009

Puro Acaso - pt.7

Voltei a casa quando já o sol já tinha aparecido, embora escondido pelas nuvens. O que mais me apetecia naquele momento é que chovesse, chovesse tanto que eu fosse apagada pelas lágrimas do céu e pelas minhas próprias lágrimas....
Entrei, senti o calor que me pós ainda mais cansada do que já estava...Dirigi-me para o meu quarto, deitei-me no o chão, comecei a olhar para o tecto...Nos segundos em que ainda estava acordada, dediquei todas as minha forças para não pensar em nada...Como estranha é a vida... Nuns dias tento concentrar-me para virem imagens dum futuro possível à minha cabeça, e noutro dia já era capaz de dar tudo no mundo para não aparecerem imagens no cume do meu corpo...As imagens que lá apareciam eram horríveis demais para poder superá-las, e, porém já não me restavam forças para tirá-las da minha cabeça, só me restava a esperança...E não é, de facto, tudo o que nos resta a todos neste mundo cruel, onde a felicidade dos outros é construída por cima da infelicidade dos outros, onde o sorriso duns aparece criado pelo rasto de lágrimas derramadas do outrem, onde já não se sabe a linha entre o paraíso e o inferno...Parece que as pessoas procuram o Inferno...Para quê a procura longa e inútil?..As vezes a resposta está mesmo debaixo dos nossos narizes...Inferno - somos nós...
Acordei com vozes a falar...Já eram 13.43h...Dormi bastante, dormi com a roupa molhada pela chuva e ainda estava molhada...Tirei-a e vesti uma camisola desportiva e umas calças de ganga simples, umas meias e saí...Estavam dois homens desconhecidos na cozinha.
- Bom dia Dana...- a minha mãe estava num banco de cozinha, a procura de qualquer coisa nos álbuns. - Estes são os senhores de polícia, visto que até agora ela ainda não apareceu, vão começar a popularizar o seu desaparecimento...
- Ah...Bom... - eu não percebia o que se passava, nem nada já fazia sentido, só precisava de paz....Senti o meu corpo fraco e os joelhos tremeram. Vi tudo andar a volta...Tinha desmaiado...
Acordei só no dia seguinte, tinham me injectado um calmante qualquer e dormi sem sonhos a perturbarem-me. No entanto, ouvi coisas a caírem, a minha mãe a chorar desesperadamente e o meu pai a tentar consola-la...Por entre muitas frases o meu cérebro automaticamente apanhou uma...As lágrimas correram-me pela cara..."Deus?!Onde tu estas?!Não...Tu não estas comigo, não existes sequer! Odeio o mundo! Odeio a frase que acabei de ouvir... " Eu mato o sacana que tirou a inocência a minha filha! Mas porquê isto, ela não abriria a boca!..." Karina, minha maninha querida...Estava....

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Puro Acaso - pt.6

Telefonamos a toda a gente que ela conhecia. Ninguém sabia onde ela estava, ninguém. Passou um dia. Não parava de pensar na Karina, será que está em apuros? Será que foi assaltada, ou raptada? Ou será que bebeu demais e agora está algures espalhada pelo chão? Ou será que...Não, não podia ser, a minha maninha não podia estar...Morta...Isto não pode ter acontecido connosco, comigo...
Passei duas horas inteiras a rezar... "Deus...Meu senhor, ajuda-me a encontra-la! Ajuda-a se esta ferida ou magoada, salva-a e serei freira, serei tudo o que tu quiseste que eu fosse. Por favor!" - pensava eu...Mais uma hora, mais duas...O tempo continuava correr como água num rio, não parava. E eu precisava tanto que parasse, para poder pensar, decidir o que fazer a seguir...Mas o tempo não para...E com cada segundo que passava perdia mais a paciência e a esperança...Onde ela está? De todas as perguntas que já tinha feito a minha mãe, aos professores ou aos outros, era a única e a mais importante que merecia mesmo ter resposta...Uma pergunta tão simples, mas tão terrivelmente difícil...
- Então? Há novidades? Vim o mais rápido que pude... - ouvi uma voz, não acreditava no facto de a estar a ouvir...Era a voz do....Do meu pai.
- Não...Não temos novidades nenhumas... - respondeu a minha mãe...
- A...A Dana? - perguntou ele...
- Surpreendente...Ainda te lembras do meu nome? - perguntei eu com uma voz irónica...
- Eu percebo-te...Estas magoada e preocupada...F...Filha também estou assim...
- Tu devias ser actor! - estava magoada...Foi pela primeira vez que o vi, em tanto tempo...
- Dana! - chateou-se a minha mãe...
- Defende-o! Sim! Ao fim de tanto tempo! Era preciso alguém desaparecer para tu apareceres? Não finjas que estás preocupado, enquanto é a última coisa que sentes! Vou-me embora! - gritei eu e corri para fora de casa...Ainda ouvi a minha mãe a gritar, mas não conseguia estar ali...Tudo lembrava-me a Karina e precisava de sossego por 5 minutos, estava confusa...O meu pai não mudou nada...Para ser sincera, queria que ele me abrasasse e que me protegesse, mas se ele não tivesse outra, se calhar a Karina agora estivesse em casa, portanto ele em parte é culpado...
Estava a chover...Eu estava sozinha, num parque...Sentada num banco, a ver pessoas a fugirem da chuva....Comecei a chorar...A frase daquele momento era uma frase em inglês "I love walking on the rain because nobody see that I'm crying"....Lágrimas eram fraquesa, mas e quem disse que eu não o era? Naquele momento, mas tive que crescer...

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Puro Acaso - pt.5

Acordei com dores de cabeça e com muita sede. Parecia que não bebia há dias. Dirigi-me a cozinha e bebi dois copos de água. Ouvi a porta do quarto dos meus pais, ou melhor, da minha mãe a abrir-se.
A minha mãe era divorciada. Éramos uma família muito feliz, eu era a irmã mais velha e a Karina a mais nova, o nosso pai era amável e eu era muito ligada á ele. Ia a escola, voltava, aos domingos passeávamos e éramos felizes. Até que um certo dia ele começou a chegar tarde a casa, deixou de ter tempo para nós nos domingos e mais tarde a minha mãe descobriu que ele tinha outra mulher que estava gravida. Deixou-o, pois ele traiu-a e traíu nos a nós. Divorciaram-se. Naquele momento apercebi-me de que não há relações perfeitas, e se pensa que há, então não passa duma ilusão.
- Olá filha! - disse ela, dando-me um beijinho na cara.
- Olá mãe! - disse eu sorrindo.
- Então quando é que chegaram à casa?
- Para ser sincera não me lembro...A Karina ainda não acordou?
- Mas ela não está no teu quarto?
- Não. Deve estar na casa de banho. Eu vou lá, bem que preciso dum banho.
Saí da cozinha e dirigi-me a casa de banho. Bati à porta. Nada.
- Karina?
Nada.
- "Gaja"?
Silêncio. Percorri a casa toda e não a encontrei.
- Mãe, ela não está em lado nenhum! - disse eu preocupada.
- Eu telefono-lhe.
E pegou no telemóvel e tentou contactar a minha irmã. Outra vez NADA. Telefonou ao Nick...
- Tou? - perguntou o namorado da Karina.
- Nick, a Karina está contigo?! - muito preocupada perguntou a minha mãe. Até ao momento eu não estava muito nervosa, não acreditava que era alguma coisa de grave, mas a partir do momento em que o Nick disse um simples e curto "Não" eu percebi que alguma coisa estava mal.
Onde estava a minha irmã? Porque que ela não dormiu em casa? Porque que tinha o telemóvel desligado? Porque que Nick tinha a voz tremida? São perguntas que me foram respondidas muito em breve, mas não duma maneira que eu queria.

Puro Acaso - pt. 4

- Karina! Há tantos rapazes aqui! - disse ele com uma voz irritada e agressiva. Ele passava o tempo todo a fazer cenas...Que dramático. Afinal isto não é um filme, não vale a pena dramatizar tanto.
- Pára amor! - respondeu ela. Eu tinha pena dela. Ela merecia um rapaz melhor, mas não. Iria ser fácil demais para ela. Mas doía-me o coração ao vê-la a tentar mudar uma pessoa que não se quer mudar.
No início ela não gostava muito dele, mas ela já estava farta dos rapazes que lhe fazem as vontades e começou a sair com o Nick para se divertir um pouco, mas entrou demasiado no jogo e já não consegue saír porque... Bem, o amor é assim. Também a vida é assim. Estamos constantemente a querer mais. Quanto mais temos, mais queremos e não damos o valor certo às coisas que tínhamos nas nossas mãos. Eu percebo que de uma certa maneira ela é feliz com ele, mas ele é ciumento. DEMASIADO ciumento. E isto não me agrada muito, porque preocupo-me com ela e Ciúmes são um sentimento tão forte como o Amor e o Ódio.
Há outra coisa que não gosto nele. Nick quer muitas coisas que a Karina não lhe quer dar. Não sei se é porque não quer ou é por causa da promessa que me fez quando eramos pequenas. Eu tinha 10 anos e ela 9. Karina chegou à casa muito feliz e contou-me o sucedido...Ela tinha beijado um rapaz da turma dela. Um beijo à sério. Fiquei muito triste porque queria ser a primeira, visto que sou a mais velha e então prometeu me que quando fossemos crescidas ela iria esperar que eu deixasse de ser inocente. Eu nem me lembrava da aposta, mas ela lembra-se dela até agora faz questão de a cumprir.
- Meninas, daqui a 5 minutos podem começar. - disse o Mark, o filho do gerente.
- Ok, obrigada. - disse a Fany.
- Tu vais tocar com estes “gajos” todos aqui? - perguntou o Nick.
Ela olhou para ele e dirigiu-se ao palco. Fomos atrás dela e começamos. Eu não parava de repetir os acordes e as letras na minha cabeça, estava muito nervosa, foi como se estivesse num exame que decidisse se seria feliz e completa ou não. Este nervosismo caiu quando peguei na guitarra e fiz os primeiros acordes. Na segunda música, fui-me levar pelo bom estado e apoio do público e sentia-me uma verdadeira estrela. Foi o melhor momento da minha vida. Parecia que tudo girava a nossa volta, afinal é isto, fazer o que gostamos mais e sermos reconhecidos por isto. Estava no topo de felicidade, sentia o sangue a bater cada vez mais rápido.
- Vamos festejar! Vou beber até cair hoje! - e dirigi-me ao bar e comecei a cumprir a minha palavra com os meus amigos.
Diverti-me muito nesta noite, bebi bastante pela primeira vez na minha vida. Sem suspeitas, aberta para o presente, de costas para o futuro, eu não sabia o que vinha aí.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Puro Acaso pt.3

A noite estava a prometer trazer-me muitas energias positivas. Arrumei a minha guitarra nova e olhei, pela última vez para o espelho.
- Vamos lá Karina, ainda temos que preparar as coisas! - gritei eu. Estava mesmo nervosa.
- Já vou! - e de seguida saiu do quarto.
Ela estava muito bonita. Seu cabelo ruivo estava perfeitamente ondulado, pareciam ondas dum mar consumido pelo fogo. Os seus olhos estavam contornados com lápis de olhos preto fornecendo assim um forte contraste. Os lábios dela estavam pintados com um brilho para lábios com tom cor-de-laranja. Estava linda e provocadora. Tinha vestida uma saia preta, uma camisa branca e por cima um top preto com muitos pins. Estava a usar o colar que eu lhe ofereci e três pulseiras. Para mim ela já era uma estrela de Rock. Sua voz era fantástica.
***
O bar estava cheio, fiquei muito nervosa. Afinal esperava por este momento há muito tempo. Encontrei a Fany e a Tina. Fany era a baterista da nossa banda tinha pele muito bronzeada, tinha olhos pretos e o cabelo castanho claro e comprido, a Tina tinha o cabelo preto, curto com uma franja para lado e tinha olhos cor-de-avelã. Eramos uma exelente equipa. De repente fiquei perturbada. Vi o namorado da minha irmã a entrar e a diregir-se para nós.
- Olá. - disse ele com um tom "eu sou o rei do mundo”.
-Olá. - respondi eu sem entusiasmo. Não gostava nada dele. Ele era muito ciumento e além disso absorvia-me e penetrava-me com seus olhos azuis - marinho. Já avisei a Karina muitas vezes, mas ela não me dá ouvidos. Teimosa como eu.